Edição de Setembro

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Artigo 49 / 58

Manuel Lemos - criador do PHPClasses em entrevista


Tags :
PHPClasses , Manuel Lemos, Icontem


Nota de redacção

Esta entrevista foi cedida gentilmente por Manuel Lemos , via email em 07-10-2006, ao qual agradecemos pela sua disponibilidade e respostas claras. Como não poderia deixar de ser , a entrevista foca o projecto PHPClasses, que tem merecido uma enorme aceitação junto da comunidade de programadores PHP, contribuindo de forma activa para que a linguagem tenha tido tanta criatividade e avanço, muito dele proporcionado pelo trabalho árduo do seu criador .



José Franco > O site PHPClasses é um sucesso a nível mundial.
Como e com que intuito surgiu o site ?


Manuel Lemos > O site surgiu por uma necessidade pessoal de divulgar componentes
prontos em PHP que desenvolvo para satisfazer necessidades dos meus
projectos.

Como esses componentes também satisfazem necessidades de outros, achei
interessante divulgar como Open Source. Isso permitiria que outros
testassem os componentes, e eventualmente reportassem bugs ou sugerissem
novas capacidades interessantes.

Esse retorno dos utilizadores dos meus componentes é uma coisa que
acontece regularmente. É bastante proveitosa para mim porque me ajuda a
melhorar os meus componentes em beneficio dos projectos nos quais os uso.

Porém, nem todos utilizadores dão retorno. Por isso sempre me empenhei
em divulgar os componentes o mais que podia, para assim maximizar o
número de utilizadores que dão retorno útil, quer dizer reportam bugs ou
sugerem novas capacidades interessantes.

No principio eu usava as listas de discussão de PHP para divulgar os
meus componentes. Sempre que alguém surgia com uma necessidade que podia
ser satisfeita com uma dos meus componentes, eu oferecia-me para lhe
enviar uma cópia do componente por e-mail.

Esse contacto directo por e-mail permitia-me manter uma lista de
utilizadores interessados. Assim podia notificá-los mais tarde
quando eu tivesse novas versões com bugs corrigidos ou novas capacidades.

Porém, com o aumento de interesse pelos meus componentes, logo se tornou
inviável manter esse contacto por e-mail, dado que me exigiria muito tempo.

Nessa altura procurei por sites que pudessem alojar os componentes e
mantivessem de alguma forma a lista de utilizadores interessados. Vi um
site chamado PX (PHP code exchange) que podia satisfazer parcialmente as
minhas necessidades.

Porém, como não dava a possibilidade de registar e notificar os
utilizadores interessados nos meus componentes, contactei o autor para
sugerir melhorias nesse sentido. Ele não se interessou, nem mesmo quando
eu me ofereci para desenvolver o código necessário para implementar
essas melhorias.

Foi então que decidi criar o site PHP Classes. No principio era apenas
para divulgar os meus componentes. Logo depois pensei que seria
interessante permitir que outros também usassem o site para divulgar os
seus componentes.

É sempre bom ter acesso a soluções disponibilizadas por outros para
problemas comuns, mesmo quando essas soluções podem ser de certa forma
concorrentes das que já disponibilizamos. Mesmo que não queiramos usar
as soluções dos outros, sempre podemos aprender algo com novas ideias ou
diferentes abordagens estudando o código dos componentes de outros.

Isto foi em meados de 1999. A partir daí o site não parou de crescer. O
resto é história.


José Franco > Os componentes (código fonte) publicados no site, são disponibilizados
de forma gratuíta.

De que forma se torna viável um projecto deste tipo, e que meios
utilizas para rentabilizá-lo ?

Manuel Lemos > No principio o site não tinha fins lucrativos. Para mim, divulgar os
meus componentes e obter retorno dos utilizadores já era um grande
beneficio.

No entanto, em 2001, quando muitos de nós foram mandados embora de
empresas que não aguentar o fim da bolha .com , tive de repensar a
minha vida, e principalmente o que queria dela.

Depois de tanto ter trabalhado em empresas com as quais não concordava
como abordavam o mercado e as oportunidades que a Internet oferecia,
achei que seria melhor investir em negócio próprio e pôr em pratica o
que achava ser o certo. Foi nessa altura que vi o site PHP Classes como
uma oportunidade para me estabelecer por conta própria.

Infelizmente nessa altura o mercado de publicidade na Internet estava
desacreditado por causa do fiasco da bolha .com . Eu até podia tentar
angariar anunciantes directos, mas isso exigia o esforço duma eventual
equipa de vendas dedicada, para a qual eu não tinha orçamento para
sustentar.

Eu continuei a desenvolver o site a tempo inteiro, adicionando cada vez
mais recursos para atrair mais utilizadores de forma viral. Mas eu
precisava de ter uma fonte de receita para continuar a trabalhar a tempo
inteiro.

Em meados de 2002 comuniquei aos cerca de 50,000 utilizadores inscritos
que o site precisava de se sustentar para não fechar. Anunciei que
pretendia vender um pacote de serviços pagos através duma assinatura
mensal de valor baixo. Esses serviços seriam exclusivos para quem se
dispusesse a pagar.

A questão era determinar que serviços seriam esses pelos quais os
utilizadores pagariam? Fiz uma sondagem propondo vários tipos de
serviços de acordo com sugestões vindas dos próprios utilizadores.

A sondagem mostrou que cerca de 3,000 utilizadores mostraram interesse
nos serviços. Fiquei convencido que esse era o caminho, mas agora
faltava por os serviços em prática. O trabalho que isso ia exigir não
era pouco e ia demorar bastante tempo para implementar os serviços.

Nessa altura, decidi fazer aquilo que por vezes chamo "dar um passo
atrás agora, para dar dois ou mais passos à frente depois".

Investi no desenvolvimento duma ferramenta de geração de código que faz
aquilo que se chama "mapeamento objecto-relacional" (ORM -
Object-Relational Mapping). Essa ferramenta gera código eficiente para
guardar e obter informação armazenada na base de dados como objectos de
negócio.

A ferramenta chama-se Metastorage e está disponível como Open Source aqui:

http://www.metastorage.net/

Em poucos meses tinha a ferramenta pronta. O benefício em termos de
produtividade do desenvolvimento de novos recursos para o site
começou-se logo a notar.

Passei a gastar muito menos tempo na parte de escrita de código de
acesso a bases de dados. Isso permitiu-me focar mais os meus esforços
nas partes que implementam as regras de negócio, que são determinantes
no sucesso das iniciativas comerciais do projecto.

Tudo isso ia muito bem, mas restou um problema crítico para implementar
os serviços de assinaturas pagas: a cobrança. Os serviços poderiam ser
cobrados por cartão de crédito, mas na altura era difícil para pequenos
negócios terem acesso às redes de cartões de crédito para cobrar
serviços pela Internet.

Já existia o Paypal, mas na altura não fornecia um meio para eu receber
os pagamentos onde vivo. Era necessário ter uma conta num banco nos
Estados Unidos. Para ter essa conta, precisava ter residência lá, que
não era o caso. O plano A ficou adiado indefinidamente.

Felizmente no fim de 2002 o mercado publicitário da Internet começou a
recuperar a credibilidade. Consegui que o site fosse aceite na rede da
TribalFusion. Era e continua a ser uma rede que paga valores elevados de
publicidade por impressão (CPM), mas na altura estava restrita a sites
com conteúdo em inglês com pelo menos 1000 visitas diárias, que já era o
caso do site PHP Classes.

Mais tarde em meados de 2003 o Google lançou publicamente o programa
AdSense. É um programa que permite colocar anúncios pagos de texto com
links, em que essencialmente o anunciante paga por clique nesses links.

Mal soube do AdSense, inscrevi logo o site PHP Classes. Deve ter sido um
dos primeiros sites no mundo a entrar no AdSense desde que esse programa
foi aberto publicamente para sites com conteúdo em inglês. Os espaços
publicitários passaram a ser dividido entre TribalFusion e Google AdSense.

A partir daí passei a investir cada vez mais em iniciativas que
trouxessem mais visitantes ao site, para assim conseguir maximizar a
receita. Iniciativas como o prémio de inovação em programação em PHP
tiveram e continuam a ter um efeito tremendo no crescimento do interesse
do site todos os meses:

http://www.phpclasses.org/award/innovation/

No entretanto, em 2005, o Paypal passou a proporcionar um meio de
receber valores retirados da conta Paypal através de cheque em dólares
ou transferência bancária internacional em alguns países.

Esse facto permitiu-me voltar ao plano A: as assinaturas de serviços
pagos. Depois de mais de 14 meses em desenvolvimento, finalmente essas
assinaturas foram lançadas em Julho de 2007.

A partir daqui vão ser lançados mais serviços que agregam valor para os
assinantes. No momento em que estou a escrever ainda não posso revelar o
que vai ser lançado, mas posso adiantar que o site vai proporcionar
melhores oportunidades de trabalho e negócio para toda a linha de
profissionais que trabalham com PHP, desde consultores, Web designers,
empresas de formação, hospedagem de sites, etc..

Estou bastante entusiasmado com futuro do site. Os interessados que se
mantenham atentos para os desenvolvimentos futuros que vou anunciando
no blog do site:

http://www.phpclasses.org/blog/





José Franco > O teu sucesso no meio é indiscutível. Destes entrevistas na TV, na radio,
nos jornais e escreveste um livro.
Foste convidado para conferências internacionais, nomeadamente no Brasil.
Sentes que Portugal te dá o reconhecimento necessário ?

Manuel Lemos > Hoje em dia, vivo no Brasil. Mudei-me em 1998 por motivos pessoais.
Portanto, não mudei por motivos profissionais ou por alguma eventual
deficiência do mercado português. O que eu faço, poderia fazer em
qualquer parte do mundo porque tudo funciona através da Internet.

Quanto a reconhecimento pessoal, felizmente não tem sido necessário. O
que mais tem influenciado é o valor proporcionado a outros pelo meu
trabalho no site.

Se o site proporciona valor aos utilizadores, eles vêem ao site.
Consequentemente, os utilizadores proporcionam retorno em relação aos
componentes que publico, e também receita gerada sob a forma de
publicidade paga por anunciantes, ou assinaturas de serviços pagas pelos
utilizadores.

Em relação a Portugal, como não tenho estado no país, talvez não esteja
em posição de comentar a situação hoje em dia. Mas enquanto vivi em
Portugal, notava um certo pessimismo e desencorajamento dos portugueses
em relação às iniciativas doutros portugueses. Lamentavelmente, eu mesmo
tinha essa atitude para com outros portugueses.

Hoje em dia, tenho uma visão de Portugal de fora para dentro. Vejo que
Portugal está muito bem numas coisas e menos bem noutras, mas em geral
evoluiu muito, especialmente depois que entrou na comunidade europeia.
Isso é bom, mas parece que quem vive em Portugal sempre tem algo com que
se queixar.

A impressão que tenho é que os portugueses em geral são muito
desconfiados em relação a tudo que se anuncia, mas ainda não está feito.
Portanto, penso que para alguém obter reconhecimento, tem de falar menos
e mostrar mais obra feita. Com obra feita vem o reconhecimento e a
credibilidade.



José Franco > Um projecto desta dimensão comporta um trabalho árduo de gestão .
Quantos elementos compõem a equipa e de que forma é feita a gestão do
sistema?

Manuel Lemos > Na verdade, no momento este ainda é um projecto tipo "tudo eu". Apesar
de ter criado uma empresa para gerir o negócio do site, eu desenvolvi e
montei tudo. Apenas a parte de contabilidade e alojamento do site é
sub-contratada.

Este também foi um factor critico para viabilizar o site. Não ter
funcionários não é algo normal numa empresa, mas foi algo necessário.

Decidi não buscar qualquer tipo de financiamento ou aceitar
investimentos de terceiros, não só porque o site está focado num mercado
nicho, como também não pretendo perder o controle das operações .

A forma de manter o site em funcionamento sem necessitar de funcionários
foi de investir no desenvolvimento de ferramentas e processos
inteligentes que tratam de tudo, ou quase tudo, de forma automática,
minimizando assim a necessidade de intervenção humana.

Uma das ferramentas que desenvolvi foi o Metastorage, que mencionei
acima, mas existem outros recursos automáticos postos em pratica.

Assim sobra mais tempo para as tarefas que realmente necessitam de
tratamento pessoal, como moderação de conteúdo, dar apoio técnico aos
utilizadores, negociar com patrocinadores e anunciantes directos, etc...


José Franco > Apesar de estarmos na cauda da Europa em todos os dominios,
como estamos no dominio tecnolologico e inovação ?

Manuel Lemos > A impressão que tenho é, como mencionei antes, que Portugal está bem
numas coisas e menos bem noutras. Mas no geral, tem evoluido bastante ao
longo do tempo.

Penso também que existe um certo exagero dado na relevância de noticias
que mostram que Portugal está na cauda da Europa. É verdade que em
termos comparativos com outros países Europeus, de acordo com alguns
estudos, Portugal não está bem classificado dentre todos países europeus.

Acredito também que existem outros estudos que mostram que Portugal está
bem noutros aspectos, mas talvez pelo tal pessimismo e desconfiança
típica do português que mencionei antes, esses estudos não são
divulgados com a devida relevância pelos meios de comunicação social.

Penso que talvez fizesse falta uma campanha para aumentar a auto-estima
dos portugueses e a maneira como olham para as iniciativas de
portugueses que investem em Portugal. Os maiores beneficiados são os
próprios portugueses que vivem em Portugal.


José Franco > Embora o PHP seja uma tecnologia robusta, fiável e gratuita, porque razão
as empresas contiuam a usar tecnologias pagas ?

Manuel Lemos > Penso que muitas empresas não têm poder de decisão sobre as tecnologias
que usam porque a área de TI não é o seu forte. Acabam por sub-contratar
outras empresas e por isso adoptam as tecnologias que as empresas
sub-contratadas entenderem.

Essas empresas sub-contratadas ganham comissões na revenda de licenças
de tecnologias e produtos comerciais. Por isso têm mais interesse em
empurrar esses produtos comerciais, mesmo que não sejam o que melhor
atende os seus clientes.

Acredito que PHP e tecnologias Open Source em geral tem maior
penetração em empresas que têm áreas de desenvolvimento e TI próprias.
Com competências internas em produtos Open Source, as empresas podem
economizar muito em licenças e investir mais em tornar os seus produtos
mais competitivos em Portugal e no resto do mundo.

Isso é verdade com empresas de todos tamanhos. Veja-se por exemplo o
caso do Google que usa exclusivamente Linux em dezenas de milhares de
servidores espalhados pelo mundo para disponibilizar os seus serviços
pela Internet. Se tivessem que pagar licenças de sistemas operativos
comerciais, a conta seria bem mais amarga.

Em vez disso, O Google aposta na contratação e qualificação de
engenheiros capacitados no domínio de Linux e outras tecnologias Open
Source, permitindo focarem-se mais em produtos e serviços que maximizam
o seu lucro, e não o lucro de empresas sub-contratadas ou que vendem
licenças de software comercial.


José Franco > Que desafios enfrenta a linguagem nos próximos tempos, na tua opinião ?
Manuel Lemos >Neste momento existe uma grande dificuldade na adopção do PHP 5. Mesmo
apesar de se ter anunciando o fim de novos desenvolvimentos do PHP 4
este ano, após de 3 anos do seu lançamento, a adopção do PHP 5
situa-se nos 23% contra 76% do PHP 4. A adopção do PHP 5 cresce apenas
ao ritmo de 1% ao mês, que muito provavelmente é inferior ao ritmo de
crescimento do uso de PHP no mundo.

Esta situação atrasa a migração de projectos antigos e o desenvolvimento
de novos projectos novos em PHP 5, dado que limita a disponibilidade de
servidores de mais baixo custo para alojamento de aplicações em PHP 5.
Consequentemente, muitos projectos acabam por não migrar para PHP 5.

O custo do alojamento com PHP 5 talvez seja um problema menor. Penso que
o problema maior é o receio de quebra de compatibilidade de aplicações
com PHP 5. Se uma aplicação precisa ser muito alterada para funcionar em
PHP 5, isso impõe um custo de migração que os donos de sites não querem ter.

Para além disso, o PHP 6 que deverá ser lançado muito provavelmente em
2008, vai introduzir o Unicode como forma padronizada de representar
texto.

Ainda não se sabe o impacto que isso vai ter na migração de
aplicações que usam versões actuais. Se o PHP 6 exigir mudanças no
código das aplicações para as tornar compatíveis, isso pode agravar o
problema da adopção do PHP 6, talvez mais do que no PHP 5.


José Franco > Que conselhos deixas aos programadores portugueses ?
Manuel Lemos > Resumidamente, recomendo que se foquem na sua capacitação o mais cedo
possível, não só em PHP, mas em engenharia informática em geral.

Para além disso recomendo que façam desde o inicio das suas carreiras
uma escolha muito importante, que é se querem viver o resto da vida a
trabalhar nas empresas de outros, ou por outro lado, pretendem um dia
estabelecerem-se por conta próprio no seu negócio.

Para os que pretendem trabalhar para outros, terão menos riscos, mas
precisaram de focar as suas carreiras a construir um currículo sólido
que seja valorizado no mercado que pretendem trabalhar. Busquem e
aproveitem as oportunidades todas que conseguirem para ir fazer, cursos,
estágios ou mesmo empregos fora do país. Não esperem terminar os seus
cursos superiores para buscar essas oportunidades.

Para os que têm espírito mais empreendedor, recomendo que comecem cedo,
mas de preferência com os pés no chão. Mesmo fazendo cursos superiores
em áreas tecnológicas, tentem complementar a sua formação e experiência
em áreas administrativas.

Não foquem os seus esforços somente nas possibilidades de obter de
grandes lucros. Normalmente aliado a grandes lucros, vêem grandes
riscos. Negócios associados a grandes riscos têm maior probabilidade de
falhar e assim levar a grandes prejuízos.

Por vezes é mais prudente começar a focar-se em pequenos nichos que não
precisam de grandes investimentos nem de capital de terceiros.

Em qualquer dos casos, penso que qualquer profissional deve focar-se em
satisfazer necessidades de outros. Só assim outros se motivam a pagar
pelo valor que os seus produtos e serviços podem agregar aos seus
patrões ou clientes.




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